Como fortalecer as rotas de leitura e a ortografia desde os primeiros anos
- Planilha Ideal
- 22 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Quando uma criança está diante de uma palavra escrita para ler, primeiro ela verifica todos os traços que compõem as letras dessa palavra. Em seguida, o cérebro dela aciona as duas rotas de leitura que podem ser usadas. Se for usada a rota fonológica os grafemas, ou seja, as letras, são convertidas em fonemas, que são os sons. Se for usada a rota lexical, há um reconhecimento visual da palavra e a recuperação do seu significado na memória.
A rota fonológica é usada em uma palavra desconhecida, por exemplo, porque nela fazemos a decodificação fonológica, ou seja, conversão letra-som. Dito isso, essa rota não permite ler corretamente palavras irregulares, que não tem relação direta letra-som, por exemplo, na palavra táxi. Conforme uma palavra real, a exemplo da palavra taxi, que antes era desconhecida, aparece em diferentes contextos na vida da criança, como no ditado, leitura, cópia, essa palavra acaba se tornando familiar e forma-se a sua representação ortográfica na memória juntamente com o seu significado. Portanto, é a partir desse processo de decodificação fonológica que é formada uma representação ortográfica da palavra. A leitura passa, então, a ser feita pela rota lexical. Por isso é tão importante incentivar as crianças a lerem livros e textos diversos para elas estruturarem um espécie de dicionário de palavras no cérebro.
Vale ressaltar aqui que quanto mais uma criança lê, mais ela ganha vocabulário e armazena a representação ortográfica das palavras na memória para fazer o reconhecimento automático durante a leitura. Caso uma criança apresente dificuldades em ler palavras conhecidas ou não, palavras inventadas, palavras que tenham relação única letra-som ou palavras irregulares, isso mostrará dificuldade nas rotas de processamento da leitura. Qualquer que seja esse déficit em uma rota ou em ambas as rotas, haverá prejuízo no desenvolvimento da leitura.
A leitura, portanto, está relacionada com o reconhecimento das palavras e quanto mais rápido e preciso melhor será a fluência.
Antes de tudo, é preciso entender que o objetivo da leitura é a compreensão do texto. Porém esse objetivo só é alcançado quando os processos básicos envolvidos no reconhecimento das palavras são eficientes.
Então, quando a criança está começando a aprender a ler, ela gasta mais energia e atenção na decodificação das palavras, ou seja, na conversão grafema-fonema, e isso sobrecarrega a sua memória de trabalho, sobrando pouco recurso cognitivo para entender o que foi lido. É importante lembrar que memória de trabalho é aquela que manipula e armazena as informações por um curto período de tempo enquanto uma tarefa está sendo realizada. Porém, a sua capacidade de armazenamento é limitada e a sua maturação vem com o avanço da escolaridade e da idade.
Com o avanço na série escolar, há uma tendência a fazer um reconhecimento automático das palavras, a leitura torna-se mais rápida e a maior parte da sua atenção passa a estar ligada aos aspectos que envolvem a compreensão do texto.
No entanto, mesmo que a criança tenha uma boa decodificação e uma leitura fluente, isso não garante que ela vá entender tudo que ela leu. A compreensão do texto não ocorre só pelo reconhecimento e obtenção do significado das palavras, mas inclui também a capacidade de fazer inferência, conhecimento do vocabulário, memória, noção de sintaxe, prosódia, conhecimento de mundo entre outras habilidades .
Assim, quando uma criança lê um texto ela precisa entender o significado de cada palavra na frase, interpretar a frase e entender como ela se relaciona com as outras frases do texto, bem como saber do que se trata a ideia geral desse texto. Além disso, a criança tende a reconstruir um modelo de representação mental do que ela está lendo e ela está sempre buscando uma coerência entre os fatos e os elementos do texto. Porém, muitas vezes, as informações não estão totalmente explícitas no texto e para estabelecer uma coerência nessa representação mental do texto é preciso fazer uso das inferências. É por causa das inferências que conseguimos deixar claro na nossa mente uma informação que está implícita no texto. Contudo, ainda há muitas crianças que tem dificuldade de fazer inferência, seja por uma falta de conhecimento de mundo, seja por uma dificuldade de acessar o conhecimento que já possui.
A compreensão de texto, portanto, vai muito além da decodificação grafema-fonema.
Se por um lado o aprendizado da linguagem oral é inata e vem com a exposição da criança a fala, além de condições físicas e cognitivas, por outro lado a leitura e escrita dependem de um aprendizado dirigido.
Dado que a língua portuguesa é um sistema de escrita alfabética, a criança precisa ter noção de que a fala é formada por sons e que os sons são representados por letras. Além disso, há palavras cujas letras têm relação única e direta com som, a exemplo da letra b na palavra bola, bem como há letras que apresentam múltiplas representações sonoras, como ocorre com a letra x nas palavras xadrez e exame. Assim como há determinados sons que podem ser representados por mais de uma letra, a exemplo de xícara e chave.
Nesse contexto, a ortografia ajuda a entender como as palavras de uma língua são escritas corretamente e o estudo dela traz benefícios para escrita e a leitura. Na leitura, isso ocorre em razão dos morfemas, que são pequenas partes que formam as palavras e que carregam um significado. Há vários tipos de morfemas na palavra, entre eles o radical, que contém significado básico da palavra, como o radical ferr na palavra ferro e ferreiro, por exemplo. Esses morfemas ao serem escritos da mesma forma em palavras diferentes, ajudam no reconhecimento de uma palavra nova por meio da inferência, indo além das relações letra-som.
Por isso, é preciso que a escola ofereça instruções diretas sobre a correspondência grafema-fonema para a aprendizagem do princípio alfabético e também que seja trabalhada a ortografia em sala de aula. O aprendizado do sistema alfabético e ortográfico de escrita deve ser feito de forma sistemática e progressiva, porque são sistemas convencionais. Dessa forma irá contribuir para a criança guardar na memória a representação mental ortográfica das palavras, ampliar vocabulário, fazer reconhecimento rápido e preciso de palavras no texto, melhorar a fluência e ajudar na compreensão textual.
Enfim, isso tudo é fundamental para que a criança extraia os conteúdos dados na escola para seu aprendizado.
Palavras chave – rota fonológica, rota lexical, ortografia, leitura,fluência, compreensão, decodificação, grafema, fonema
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